AHSD - entre o normal e o estranho: quando não há lugar pronto para quem é diferente
- ftadriana
- há 1 dia
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Existe um tipo de solidão que não nasce da ausência de pessoas, mas da ausência de encaixe.
É a sensação de ser “normal demais” para ser reconhecido como neurodivergente e, ao mesmo tempo, “diferente demais” para caber no que chamam de neurotípico. Um território intermediário, pouco nomeado, pouco compreendido, mas profundamente vivido por muitas crianças e jovens com AHSD - altas habilidades/superdotação.
Escrevo isso como testemunha cotidiana desse entrelugar. Não é uma teoria para mim. É mesa de jantar, porta de escola, fim de domingo, convite recusado, quarto fechado para recuperar energia.
Não é sobre não conseguir aprender, é muitas vezes, aprender rápido demais e ainda assim não se sentir pertencente. Não é sobre não se comunicar, é perceber camadas demais nas conversas, nas relações, nas regras implícitas. Não é sobre não funcionar, é funcionar em outra configuração - como diz Sophia Johnatan em sua música que descreve com delicadeza essa experiência de existir fora do padrão sem, necessariamente, romper com tudo. Não é uma quebra total, é um ajuste fino que muda toda a leitura do mundo.
A zona invisível
Há crianças e jovens que não recebem apoio porque vão bem nas provas. Não recebem acolhimento porque “dão conta”. Não recebem escuta porque parecem maduras. Por fora, tudo funciona. Por dentro, o desgaste é real.
Vejo isso quando minha filha prefere ficar só depois de um dia socialmente intenso, não porque não goste das pessoas, mas porque o excesso de estímulo cobra um preço. Vejo quando ela recusa convites que outras crianças aceitariam sem pensar. Vejo quando precisa de silêncio para reorganizar o que sente.
De fora, pode parecer frescura, antipatia ou isolamento. Por dentro, é autorregulação.
Essa é a zona invisível da superdotação: quando a diferença não impede, mas pesa.
O custo aparece em forma de autocobrança extrema, ansiedade, sensação de inadequação, exaustão social, perfeccionismo rígido e medo de falhar. Como não há ruptura evidente, o sofrimento costuma ser relativizado.
“Mas ela é tão inteligente.”
“Mas ele vai tão bem.”
“Mas não parece ter dificuldade.”
E, de fato, não parece — para quem olha de fora.
Muito para uns, pouco para outros
No convívio, surge outro paradoxo: para alguns grupos, a criança/jovem é intensa demais, questionadora demais, profunda demais. Para outros, é funcional demais, adaptada demais, verbal demais para ser considerada neurodivergente.
Resultado:
Ela circula — mas não repousa.
Participa — mas não pertence.
É elogiada — mas não é compreendida.
O olhar materno no entrelugar
Para quem materna, o desafio é duplo: sustentar a singularidade do filho e, ao mesmo tempo, traduzir essa singularidade para o mundo. Nem sempre há linguagem pronta. Nem sempre há categoria confortável. Nem sempre há protocolo.
Há observação, tentativa, erro, ajuste — outra configuração, todos os dias.
Maternar uma criança superdotada, muitas vezes, é aprender a validar dores que o mundo chama de exagero. É explicar que recusar um convite pode ser cuidado, não desfeita. Que preferir estar só, às vezes, é necessidade e não rejeição. É proteger sem superproteger. É estimular sem pressionar. É lembrar, para o filho e para si, que diferença não é defeito e facilidade não é ausência de necessidade.
Pertencimento não é encaixe forçado
Com o tempo, a maior mudança não é fazer a criança caber, mas sim ajudar a criança a se reconhecer. Pertencimento não nasce do encaixe perfeito. Nasce do reconhecimento verdadeiro.
Talvez não existam muitas caixas adequadas. Talvez seja preciso criar espaços novos, conversas novas, medidas novas. E, quando isso acontece, algo muda: a criança para de tentar ser aceita e começa a se sentir vista.
Não é sobre fazer com que ela se sinta igual, mas dar suporte para que tenha espaço para o "ser diferente". Assim, teremos pretencimento real.
Um beijo com carinho
Adriana



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