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Ela é superdotada, que sorte !


Quando as pessoas descobrem que uma criança ou jovem é superdotada, quase sempre a reação vem acompanhada de encantamento.

“Uau.”

“Que incrível.”

“Que privilégio.”

“Ela vai longe.”

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E então vêm os aplausos, mas raramente vêm as perguntas.

Ninguém pergunta o que significa crescer sentindo tudo de forma intensa demais, perceber o mundo antes da hora, tentar pertencer em espaços que celebram o desempenho, mas não acolhem a diferença.

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Existe uma fantasia muito confortável sobre a superdotação: a de que ela funciona como um tipo de superpoder. Um rótulo que faz muita gente acreditar que inteligência elevada elimina vulnerabilidades, que crianças superdotadas naturalmente saberão lidar com pressão, frustrações, expectativas e solidão e que, por isso, não precisariam de suporte emocional, escuta ou proteção.

Afinal… “ela vai dar conta”.

Ao longo do tempo, fui ouvindo comentários parecidos vindos de diferentes lugares.

Algo do tipo “lapidar potencial” ou sobre tudo o que ela “tem que” desenvolver.

Isso sem falar no cuidado para não parecer arrogante, intensa demais ou uma “nerdola”.

Aos poucos, comecei a perceber o peso escondido nessas falas.

Porque, no meio de tantas expectativas sobre aquilo que ela poderia se tornar, quase ninguém pergunta quem ela já é.

Talvez a parte mais cansativa da romantização da superdotação seja essa: a ideia de que a criança existe para corresponder ao potencial que os outros enxergam nela.

Como se ser inteligente transformasse alguém automaticamente em um projeto ou uma promessa. Ou ainda pior, em vitrine.

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Mas superdotados não são personagens inspiradores em construção, máquinas de desempenho ou talentos esperando autorização para existir.

São crianças.

Adolescentes.

Pessoas inteiras com interesses próprios e momentos em que simplesmente não querem performar genialidade nenhuma.

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Existe ainda uma camada sobre a qual quase ninguém fala: o quanto meninas superdotadas aprendem cedo que precisam equilibrar inteligência com “simpatia”.

Ser brilhante, mas não demais.

Saber muito, mas sem intimidar.

Se destacar, mas sem parecer convencida.

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Será que um garoto ouviria as mesmas preocupações? Ou sua inteligência seria apenas incentivada sem tantos alertas sobre como ela pode incomodar os outros?

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No fim, talvez a superdotação tenha menos a ver com sorte do que as pessoas imaginam.

O talento chama atenção, encanta, gera aplausos rápidos, expectativas altas e uma coleção de projeções sobre o futuro.

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Enxergar o brilho é fácil, mas pouca gente sabe sustentar o que existe ao redor dele.

Continuar presente quando não há desempenho, produtividade ou genialidade visível.

Olhar para essa criança e ver além daquilo que ela entrega ao mundo.

Além do potencial.

Além das expectativas.

Além da admiração.

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Talvez o verdadeiro reconhecimento venha quando eles deixarem de ser vistos como um “talento promissor” e passarem a ser acolhidos simplesmente pelo que são.

Quem sabe, um dia ....

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A quem chegou até aqui, obrigada pela companhia.

com carinho

Adriana


 
 
 

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